Sincronicidades Perfeitas

Como qualquer divindade, o acaso tem exigências. São-lhe devidas devoções. Fazem-se devoções ao acaso estando-se na sua presença. À sua disposição. Permanentemente. Todos os sentidos em luta, os cinco conhecidos, e os não conhecidos pelo nosso mundo enfermo. De maneira a não o deixar escapar se ele ultrapassar as marcas.

Todos nós alguma vez ficámos espantados e perplexos, sensibilizados ou mesmo confundidos pela força duma coincidência, pelo encontro surpreendente e inesperado, às vezes explosivo, de dois fenómenos ou de duas palavras ou de dois seres que supostamente jamais se deveriam ter encontrado e reunido neste mundo, cheio de improbabilidades.

Já alguém reflectiu muito sobre o fenómeno das sincronicidades que se manifestam pelo aparecimento imprevisível ou inopinado de pensamentos, de actos, de factos ou de acontecimentos, ou ainda pela repetição de situações que, situando-se em planos e realidades diferentes, não tinham «nenhuma razão» para se encontrarem nem nenhuma probabilidade estatística de surgirem naquele momento e naquele lugar.

É característico da sincronicidade produzir um sentido ou uma nova energia que permite uma troca de olhares, suscita uma atenção diferente, provoca uma interrogação, uma reflexão ou uma investigação numa certa direcção e revela, para além das aparências, possibilidades e previsões, aspectos jamais suspeitos da existência. Como dois seres que do nada se encontram, e na movimentação banal de seus rostos, olhares desconhecidos que se encaixam na filosofia perfeita, como o simples sobrepor de posições da lua e sol , a que chamamos ECLIPSE.

A linguagem das palavras

Durante grande parte da minha vida, faltavam-me as palavras para me poder exprimir. Desconhecia em absoluto que elas existiam, que estavam disponíveis, ao meu serviço, vivendo eu na ignorância de que podia utilizá-las em meu proveito. As palavras, como tantas outras coisas no mundo que me rodeava, a priori pertenciam aos outros, estando-lhes reservadas. Dir-se-ia que eu não tinha acesso a elas e que não tinha o direito de as usar.

Mas descobri que no silêncio da minha dor, na solidão a que me vi enclausurado, encontrei nas palavras o refugio perfeito de um harmonia almejada.

Foi preciso cair em desgraça onde nem a sombra faz companhia, que me encontrei com o verbo ser, do que fui, sou e do que deixo aos que ficam.

O meu tempo finda em avalanche. A vida corre-me em hemorragia sem cessar, mas ainda tenho tempo de dizer em palavra única, que valeu a pena viver, e descobrir a palavra Amar.

Beijo Armadilhado

Foi no teu beijo que me perdi e no teu corpo onde nunca mais me encontrei.
Ao teu olhar, eu sorri pela primeira vez que te vi passar.
Não sabendo eu, que seria ele que me iria matar.

Acreditei na tua lágrima, e aos meus braços te consolei.
Chorei pelas tuas causas e pelas tuas causas me comprometi…
… e com as tuas causas eu vivi.

Enquanto sonhava contigo, desesperado na dor do vazio solitário,
a outro te entregavas com o melhor que em ti depositei.
E perdi…
Perdi, porque em ti acreditei.

Acreditei no teu amor, Acreditei no teu beijo molhado.
Acreditei em tudo o que me dizias e fazias.
E orgulhoso eu exibia o teu sorriso,
Desconhecendo o teu beijo armadilhado.

ACASO de um sonho DESFEITO

«Se estivermos alerta e com os olhos e espíritos abertos, veremos que os lugares-comuns podem dizer qualquer coisa; veremos objectivos muito reais em situações às quais poderíamos, de outra forma, encolher os ombros e chamar ‘acaso’.»

Muitas são as vezes em que de nós, damos o que de melhor em nós há. Muitas são as vezes em que acreditamos que o esforço e sacrifício, baseado no amor que sentimos, justificam as noites mal dormidas, na solidão de um vazio quarto, onde até as paredes despidas nos humilham, e nos mostram o quanto insignificantes somos, ao ponto de sermos esquecidos/trocados por uma noite de copofonia, cigarros e conversa deitada fora, com um estranho que somente cobiça o nosso corpo para um momento de prazer egoísta.
Muitas são as vezes que passamos indiferentes perante um acto de grandeza, de um simples dar sem pedir, de um simples sorrir sem cobrar.
Quão tamanha dor infligimos pelo nosso egocentrismo, de achar que a nossa dor é maior que a do semelhante, que o nosso esforço é mais aguerrido que daqueles que de tudo fazem só para nos terem na sua vida, como companheiros e copinchas no mais simples dos segredos?! Mas tudo é um acaso!? Tudo é um sonho? Se é, será que ainda possuímos essa capacidade de sonhar? É certo que quase todos nós temos desejos; mas será que ainda temos sonhos? Os desejos são impulsos, muitas vezes superficiais, que não resistem às dificuldades da vida; os sonhos são projectos de uma vida – nós crescemos ao ritmo e à medida dos nossos sonhos.
Mas se no nosso sonho é feito somente da palavra EU, de nada vale sonhar. Porque de nada vale ganhar. Se não temos com quem partilhar esse sonho materializado.
“O sonho comanda a vida!”… mas não uma vida sozinha.